Salário bruto vs líquido: CLT, MEI, PJ — qual é o melhor regime?
Comparativo entre os principais regimes de trabalho no Brasil. Descontos, benefícios, custo total para o empregador e para o trabalhador.
Receber uma proposta de R$ 10.000 não significa que R$ 10.000 vão para sua conta. Os descontos previdenciários, tributários e os benefícios variam radicalmente entre os regimes CLT, MEI e PJ. Esse guia destrincha os três principais formatos de trabalho no Brasil e mostra como comparar ofertas que parecem equivalentes mas pagam de forma muito diferente.
O regime CLT
A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) é o regime tradicional de emprego com carteira assinada. O empregador desconta INSS e IRRF na folha, deposita FGTS, paga férias com 1/3 constitucional, 13º salário e arca com encargos patronais.
Em um salário CLT de R$ 10.000:
- INSS (alíquota efetiva): cerca de R$ 951,45 (teto 2026)
- IRRF: cerca de R$ 1.479 após dedução do INSS
- Líquido em conta: aproximadamente R$ 7.570
Mas o cálculo está incompleto. O CLT recebe ainda: 13º salário (R$ 10.000/ano dividido), férias com 1/3 (R$ 13.333 a cada 12 meses) e FGTS (8% sobre o salário ao mês, mais multa de 40% em caso de demissão sem justa causa).
O regime MEI
O Microempreendedor Individual paga apenas o DAS — em 2026, R$ 75,90/mês para serviços, R$ 81,90 para indústria, R$ 76,90 para comércio. Essa contribuição inclui INSS (5% sobre o salário-mínimo), ICMS ou ISS conforme a atividade.
O MEI tem limite de faturamento de R$ 81.000/ano (R$ 6.750/mês). Acima disso, a empresa migra automaticamente para Simples Nacional ME ou EPP.
Quando vale a pena? Para quem fatura abaixo do teto e quer simplicidade tributária máxima, é o melhor formato. Mas perde acesso a benefícios trabalhistas e tem proteção previdenciária mínima (aposentadoria sobre o salário-mínimo).
O regime PJ (Pessoa Jurídica)
O profissional PJ tem CNPJ e fatura diretamente para a empresa contratante. Geralmente abre uma empresa de Lucro Presumido ou Simples Nacional, fatura mensalmente e arca com a tributação resultante.
Em Simples Nacional Anexo III (serviços), faixa inicial de até R$ 180.000/ano:
- Alíquota efetiva: cerca de 6% sobre o faturamento
- Sem necessidade de pró-labore mínimo, mas exige INSS sobre o pró-labore que escolher pagar
- Despesas como aluguel, internet e equipamentos podem ser custos da empresa, fora da folha
O PJ tem alíquota efetiva muito menor que CLT, mas perde direitos trabalhistas: férias remuneradas, 13º, FGTS, aviso prévio. Em compensação, recebe o líquido inteiro e pode otimizar a tributação com planejamento contábil.
Comparativo prático: R$ 12.000 mensais por regime
Imagine três ofertas para o mesmo trabalho:
- CLT R$ 12.000: líquido ~R$ 8.900/mês + 13º + férias + FGTS = custo total empregador ~R$ 17.500
- PJ R$ 14.000: aproximadamente R$ 13.150 líquidos (Simples 6%), sem benefícios — equivalente a 47% mais que CLT no líquido
- MEI R$ 6.750: limite máximo, R$ 6.674 líquidos — não comparável aos outros pelo teto
O cálculo aparente favorece o PJ, mas atenção aos riscos: ausência de FGTS em demissão, custo de plano de saúde particular (R$ 500-1.500/mês), férias não remuneradas, e necessidade de previdência privada para aposentadoria decente.
Como comparar ofertas
Use a regra do "valor equivalente": um PJ deve receber ao menos 30-40% a mais que CLT para empatar quando se contam todos os benefícios. Em ofertas borderline, simule:
- Calcule o líquido CLT mensal
- Some 1/12 do 13º (8,33% do salário)
- Some 1/12 das férias com 1/3 (~11% do salário)
- Some 8% de FGTS, ajustado pela probabilidade de demissão
- Some custo de plano de saúde se vier no pacote (~R$ 800/mês)
O total dá uma referência justa. Use nossa calculadora de salário CLT para o cálculo exato.
Outros pontos críticos
Pejotização e fiscalização: Trabalhar como PJ para um único contratante por anos pode caracterizar vínculo trabalhista disfarçado, com risco de autuação trabalhista para a empresa. Empresas sérias diversificam contratos PJ ou usam terceirização legítima.
Aposentadoria: Em CLT, o INSS é descontado automaticamente. Em PJ, você precisa pagar pró-labore com INSS para contar tempo de contribuição. Em MEI, a contribuição vai sobre salário-mínimo (aposentadoria pelo piso, salvo complementações).
Estabilidade financeira: Crédito imobiliário e cartão de crédito favorecem CLT. Bancos exigem 2-3 anos de declaração para PJ/MEI antes de comprovar renda.
Conclusão
Não existe regime universalmente melhor. CLT oferece mais segurança e benefícios trabalhistas. PJ permite líquido maior, autonomia e flexibilidade. MEI é ideal para quem fatura pouco e busca simplicidade. A escolha depende do perfil profissional, tolerância a risco e estágio de carreira. Antes de decidir, faça a conta — não apenas do salário aparente, mas do conjunto completo.
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